Desautomatização
damn dream

houve uma festa, no meio da cidade, num galpão, com cerveja quente e jazz.

os letreiros luminosos e azuis diziam:
“BEM VINDO AO INFERNO, TRAGA UM PEDAÇO DO SEU”
e eu levei você.

(y)

Emma… Você tinha me perguntado se eu acreditava no amor eterno. O amor é abstrato demais, e indiscernível. Ele depende de nós, de como nós o percebemos e vivemos. Se nós não existíssemos, ele não existiria. E nós somos tão inconstantes… Então, o amor não pode o ser também. O amor se inflama, morre, se quebra, nos destroça, se reanima… nos reanima. O amor talvez não seja eterno, mas a nós ele torna eternos… Para além da nossa morte, o amor que nós despertamos continua a seguir o seu caminho.
— Azul é a cor mais quente
Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara.
Oswaldo Montenegro. 

Quando pensei em voltar é que era mesmo a hora de partir. Tentar refazer o caminho inverso não dá, pisar nas mesmas pegadas enquanto se anda de costas é o mesmo que pedir para se desequilibrar e cair. Existem mais caminhos a seguir que terminações nervosas espalhadas pelo corpo. Mas seguir ir em frente a qualquer custo, implica em cambalear como bêbado tentando caminhar em linha reta. Ser um bêbado, ou caminhar como um, não faz ninguém melhor. A sobriedade é uma das melhores condições que posso estar para escolher o que seguir. Não há como restaurar o império romano assim como ele realmente foi no ápice de sua glória. Não há como juntar pedaços felizes e formar uma bela escultura, no mínimo formará um monstro disforme que pode ser, em partes, bonito e noutras parecer um monstro saído da imaginação de alguém. Apesar da variedade de caminhos, estou no meio do lago Ness, bem no meio, imerso em suas águas turvas e sem respirar. Não estou perdido, só quero enxergar o que está a me esperar.

todas as canções do rádio contam sobre você.
Resabinar. 

"o que resta a mim é partir sem nunca ter chegado"

mendigos são poços dos desejos dos tempos modernos:
jogamos uma moeda
e esperamos que algo de bom venha
só porque fizemos isso.

Quando eu era criança gostava de observar as coisas. Costumava ficar olhando os carros passarem na rua. No parque, os velhinhos fazendo suas caminhadas matinais. Meu irmão e a namorada brigando na sala. Ficava no meu quarto vendo com meu binóculo as janelas dos apartamentos duas quadras do meu. As pessoas e seus costumes estranhos. De ficar fumando na janela cogitando um salto suicida, de dormir com a luz acesa por medo do escuro, de dar uma festa na sexta e definhar de tristeza no sábado e no domingo. De amar sem dar amor. Tentando entender os pensamentos, entender o sentido de viver e vivendo sem sentido. Tentava entender todas essas pessoas e entender o que elas faziam, o motivo. Hoje eu sei.
Hoje estou aqui na mesma janela de sempre, com meu binóculo jogado no chão, com a luz acesa, uma vadia dormindo na minha cama depois de amar sem dar amor, resultado de uma festa que dei ontem e com um cigarro entre os lábios e cogitando um salto suicida. E hoje definho na tristeza de uma madrugada de domingo, tentando me entender, entender meus pensamentos e meus costumes estranhos. Hoje eu sei que não sei de nada. A vida nunca irá ser entendida, você sempre buscará um sentido, deuses e afins. E a única coisa que vai entender é que não entende nada disso. Só espera que um dia tudo se esclareça, tudo tenha um fim lógico e fazendo do lógico algo surreal. Deixe-me terminar meu cigarro e sorrir quando tocar no rádio aquela Bossa nova ou velha, usada ou em desuso.
D C Monroe 

Esse frio que dilacera a maestria da tua inconstância é tão efêmero quanto a fumaça de um cigarro. Logo ouço o som do crepitar do fogo que emana do cinzeiro em chamas, você é fugaz, ladie. Os seus sinais estão por todos os cantos da casa e as rachaduras lhes dão o semblante de desespero, porque a única coisa que você teme é que sua ruínas não encontrem abrigo no chão, o inferno já lhe é familiar demais pra quem convive com demônios encurralados dentro de si e o céu é alto demais pra quem carrega nos anos um porre de decadência. Você é mais pessoas que Fernando Pessoa, mais muitos do que ele se condena, mais densa que o ar frio, você é sólida, vapor, líquido, bi-trifásica. Eu caí numa chaminé aonde você torrou minhas células com  o ar da tua graça (vulgo desgraça) e agora a paralisia me consta o efeito da tua biópsia mal feita, 

é, agora suas ruínas tem o chão que lhes suporte

paralisado, imaculado e vitimizado, a seleção natural cortou minhas asas e agora eu sou o chão que você pisa. 

Pedro St.

Segunda-feira blues I, apesar de terça. Reli teorias paradoxais e secretas, darling, de um ano atrás. Houve um fim do mundo em dois mil e doze, sim. Nós sentimos. Eu, sem ti, senti. Eu, contigo, sinto. Pedro - rapaz que é bonito como são, de uma forma ou outra, todos os Pedros, rapaz que é bonito como quem corta a retina com uma navalha, à la Un chien andalou, e enxerga muito mais - nomeou nosso estar como um estado de “sozinhez”: de quem compartilha a solidão. Então, que é tudo frágil e delicado se não reina o silêncio, se reinam somente os olhares. Olhares não são silenciosos como tantos dizem ou como tanto disse, um dia, eu. Olhares dialogam, quase gritam, quase sussurram. Eu pisco. Pedro nunca me viu piscar. Ele me ensinou a encontrar um horizonte dentro de outro horizonte dentro de outro horizonte, diagnosticando meus lapsos e minha insônia. Você me assiste enquanto pisco e diz que deve haver emoção escondida nas putas de Bukowski que nunca li ou nos cortes de Godard que me tonteiam.

"Onde estão os caras que pregavam no deserto?"
"O deserto continua lá…"

Todo fim de ano, darling, é isso. Eu avalio e compreendo que não passo de reflexos - e reflexões.
Claudia Calado  

A gente não diz, não é?

A gente não diz nem metade do que quer, pra ninguém. Nem que a gente ame extremamente, nem que a gente odeie, nem que a pessoa mereça. A gente não diz.

E aí nos afogamos no mar de palavras não ditas. 

Inundados de palavras, é assim que vivemos, é assim que morremos.

És precária e veloz, Felicidade. Custas a vir e, quando vens, não te demoras. Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, e, para te medir, se inventaram as horas. Felicidade, és coisa estranha e dolorosa: fizeste para sempre a vida ficar triste: porque um dia se vê que as horas todas passam, e um tempo despovoado e profundo, persiste.
Cecília Meireles.